08 May 2021

69. POESÍA BRASILEÑA.MANUELLA BEZERRA DE MELO

-13 Mar 2021

 

ENVENENEI O CÉU PRA QUE VOCÊ

não visse morrer a segunda filha

o socialismo é um programa

é uma fenda no meu umbigo

é uma pasta de grão de bico

sob uma torrada com azeite

cancelei o café diário

que equivale ao suicídio sem extremismos

quantos estômagos são necessários

pra digerir a graxa que você passou¿

quantos fígados precisas

pra filtrar todo álcool necessário

de seguir viva¿

Perguntam-me como estou¿

efetivamente viva

por vezes, nem tanto

quase sempre

esta parte, omito

omissão é a caverna eficiente dos ineficientes

não se compartilha maledicências

dores amargores brotoejas

feridas abertas são constrangedoras

e já não há mais ninguém em condições

tenha selfies sorridentes e esbeltas

braços abertos, rei do mundo

as minorias se adequam

ou desaparecem

antagonismos a parte

o socialismo é um programa

 

 

ENVENENÉ EL CIELO PARA QUE NO

viera morir a la segunda hija

el socialismo es un programa

es un grit0 en mi ombligo

es una pasta de garbanzo arriba

una tostada con aceite de oliva

cancelé el café diario que es

equivalente al suicidio sin extremismos

¿cuántos estómagos se necesitan para

digerir la grasa que pones?

¿cuántos hígados necesitas para

filtrar todo alcohol necesario

para permanecer vivo?

¿pregúntame cómo estoy?

vivo, efectivamente

a veces, no tanto, casi siempre

esta parte omito

la omisión es la cueva eficiente

de los ineficientes

la calumnia no se comparte

dolores brotes amargos

las heridas abiertas son vergonzosas

y no hay nadie más en condiciones

tenga selfies sonrientes y delgadas

brazos abiertos, rey del mundo

las minorías encajan o desaparecen

antagonismos aparte

el socialismo es un programa

 

 

UMA BANDEIRA TREMULOU UMA MULHER

que andou o oásis inteiro no seu rastro

 

Uma mulher atravessou um deserto

a cuspir na boca do seu filho com sede

lá encontrou outras mulheres cuja

sede é o motivo das travessias

 

Uma criança com sede carregou uma

mulher no seu lombo até que

pudesse ela chegar ao outro lado

do deserto em segurança desta vez

 

Uma mulher arrasta nas pernas

uma bandeira, uma criança, um deserto

 

 

UNA BANDERA REVOLOTEÓ A UNA MUJER

que recorrió todo el oasis a su paso

 

Una mujer cruzó un desierto

escupía en la boca de su hijo sediento

allí conoció a otras mujeres cuya

sed es el motivo de los cruces

 

Un niño sediento llevaba una

mujer de espaldas hasta que

pudiera llegar al otro lado

del desierto a salvo en esta vez

 

Una mujer arrastra sobre sus piernas

una bandera, un niño, un desierto

 

 

A PELE, UMA VEZ QUE HABITA O SAL

assume posição protocolar de felicidade

 

Os povos dos trópicos são luminosos,

tem o coração cortado pela linha do Equador

 

Uma flecha acerta-lhes como alvo

e assim despejam-se nas águas mornas

 

O corpo em feridas que sangra se cura

se levanta em sal pra render a vida vindoura

 

Os povos dos trópicos são mumificados para que

durem milênios, tornam-se pais e mães de todos os povos

 

A pele, uma vez que habita o sal

assume o estatuto da eternidade

 

Espera o seu retorno

Esperam a chegada do seu reinado

 

 

LA PIEL, YA QUE HABITA LA SAL

asume la posición de protocolo de la felicidad

 

Los pueblos de los trópicos son luminosos,

tienen el corazón cortado por la línea del ecuador

 

Una flecha los golpea y así

se vierten en las cálidas aguas

 

El cuerpo en heridas sangrantes sana

levántate en sal para dar la vida por venir

 

Los pueblos de los trópicos están momificados para durar milenios,

convertirse en padres y madres de todos los pueblos

 

La piel, ya que habita la sal

asume el estado de la eternidad

 

Espera que regrese

Esperan la llegada de su reinado

 

 

SOOU-ME O ALARME ÀS SEIS

soa tal o uivo de uma cadela

guindasteei-me na força de uma mãe

servi melão pão café leite

ele partiu porque fi lhos partem

e levou a matéria orgânica dos dias

esvaziei-me e vazia dei a mim

trinta convalescentes minutos

curei-me da morte numa pilha de pratos

uma típica manhã: caríbdis no inox

 

 

LA ALARMA SONÓ A LAS SEIS

suena como el aullido de una perra

Me levantó la grúa en la fuerza de una madre

serví pan de melón café leche

se fue porque los hijos se van

y llevo la materia orgánica de los días

Me vacío y vacío me di

treinta minutos de convalecencia

Me curé de la muerte en un montón de platos

una mañana típica: caríbis de acero inoxidable

 

 

ENXERGO ATRAVÉS DOS MUROS

embebida em sangue vermelho

me afundo em sede espessa

enquanto passeiam gabirus

em fuga dos cozinheiros e serventes

com suas vassouras sujas

não interfi ro: observo acompanho

e

pra que não adentrem meus sonhos

cerro as janelas

 

 

VEO A TRAVÉS DE LAS PAREDES

empapado en sangre roja

me hundo en una sed espesa

mientras pasean las ratas

huyendo de cocineros y sirvientes

con tus escobas sucias

no interfieras: yo miro, acompaño

y

para que no entren en mis sueños

cierro las ventanas

 

 

Manuella Bezerra de Melo é recifense, autora de Pés Pequenos pra Tanto Corpo (Urutau, 2019), Pra que roam os cães nessa hecatombe (Macabéa, 2020), ambos de poesia, e de ‘A fenda’, seu primeiro livro de ensaio no prelo da editora Zouk. É jornalista mestre em Teoria da Literatura e, atualmente, bolsista no Programa Doutoral em Modernidades Comparadas: Literaturas, Artes e Culturas na Universidade do Minho, em Portugal, onde vive desde 2017.

 

Manuella Bezerra de Melo es periodista, investigadora y poeta. He publicado Pés Pequenos pra Tanto Corpo (Piés chiquitos para mucho cuerpo; Urutau, 2019), Pra que roam os cães nessa hecatombe (Pra que royan los perros en esta hecatombe; Macabéa, 2020), los dos de poesía, y de ‘La Fenda’, su primer libro de ensayo (Zouk, 2021). Es Máster en Teoría de la Literatura y actualmente becaria del Programa de Doctorado en Modernidades Comparadas: Literaturas, Artes y Culturas de la Universidad del Minho, en Portugal, donde reside desde 2017.

 



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